terça-feira, agosto 14, 2007

Gaudí na Favela

Há histórias incríveis.

A de Estevão Silva da Conceição é uma delas. Homem simples, de pouca escolaridade, lavrador, homem do povo, veio da Bahia para São Paulo no início dos anos 80 - como tantos outros seus conterrâneos -, à procura daquela vidinha melhor, de trabalho e pão na mesa.

Trabalhou arduamente como porteiro (mas também era jardineiro, ajudante de pedreiro...de tudo um pouco) num desses condomínios fechados, de luxo, para conseguir um pedaço de terra: um barraco na favela paulista de Paraisópolis. Estevão foi, talvez, dos poucos a dar significado ao nome, no mínimo irónico, desta favela que dá pelo nome de Paraíso...

[aqui abro um parêntesis, bem recto, para dizer que nunca consigo levar muito a sério estes nomes de bairros, localidades ou cidades brasileiras com terminação de ...ópolis, parece-me sempre que estou a ler os Patinhas!!!]

...mas adiante, em plena favela, Estevão, sem nunca sequer ter ouvido falar do Mestre catalão Antoní Gaudí, fez uma obra à sua imagem e semelhança, construíu o seu refúgio gaudesco nos escassos metros quadrados de que dispunha, com materiais encontrados, recolhidos no lixo, comprados em bazares, numa obra prima de criatividade e iluminação. Nessa casa suspensa, vive com a sua esposa e o casal de filhos. Como explica Estevão, tudo começou porque ele cismou que queria um jardim... começou por plantar um pé de roseiras, que foi logo derrubado pelas bolas invasoras das crianças que brincavam... o jeito era mesmo criar uma estrutura suspensa, protegida por ferros, que protegesse as flores. Começou, desta forma, o seu jardim suspenso, e a partir desse momento a obra não mais parou. Iniciada há 22 anos, esta é uma obra eternamente inacabada.

A vida e a obra deste criador já foram alvo de um Documentário, feito pelo realizador brasileiro Sérgio Oskman, que divulgou Estevão da Silva Conceição junto da comissão organizadora do Aniversário dos 150 Anos de Gaudí; fascinados pela obra deste baiano, a Comissão ofereceu-lhe uma viagem a Barcelona, para ver, de perto, a razão por que todos lhe chamam o Gaudí Brasileiro.

Emociono-me sempre com aqueles que conseguem, nas condições menos favoráveis, trazer alegria, cor e fantasia às suas vidas. Aqui fica um exemplo da genialidade de um homem, que não tem a menor consciência artística, mas tem em si, a grandiosidade da arte.


















7 comentários:

Mané disse...

Querida amiga, à medida que fui lendo parágrafo após parágrafo desta história que desconhecia (e que tu com tanta arte soubeste contar), fui sentindo apertar-se-me o peito, primeiro tão suavemente, mas logo com tanta força que chegou aos olhos - e não de angústia, mas de maravilhamento.

isabel disse...

Extraordinária a vida deste homem, grandiosa a sua arte, exemplar o seu relato! Boas férias e boas descobertas!

papoila menina disse...

:))) é bom partilhar histórias felizes.***

Fio d'Art disse...

fantástica história

Feira da Bela Vista disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luana Avelino disse...

Adorei a história! Estou desesperada atrás do documentário e nada... você sabe aonde eu posso conseguir?
Obrigada e continue nos dando o prazer de suas linhas.

papoila menina disse...

olá Luana,
não sei, mas vou procurar e se descobrir, dou notícias! Obrigada pelo comentário! :)